- +6,8%
- custos de construção de habitação nova, julho 2026
- +22,8%
- derrapagem média nos casos do estudo UCI em que o orçamento foi ultrapassado
- 414 dias
- tempo médio previsto de construção no estudo UCI
Quanto mais se decide antes, menos se improvisa durante.
A obra não ficou cara no fim. Pode ter começado mal definida no início.
Quando um orçamento começa num valor e termina bastante acima, é fácil assumir que “as obras são assim”. Nem sempre.
Há fatores externos impossíveis de controlar. O preço dos materiais muda, a mão de obra encarece, fornecedores atrasam-se e podem surgir condições que só se tornam visíveis quando a obra começa.
Mas também existem derrapagens que começam muito antes disso. Começam num “logo vemos”. Num material ainda por escolher. Numa alteração feita depois de a equipa já ter iniciado os trabalhos. Ou numa decisão aparentemente pequena que obriga a voltar atrás.
O contexto atual torna esta preparação ainda mais importante. Em julho de 2026, os custos de construção de habitação nova em Portugal estavam 6,8% acima do mesmo mês do ano anterior. O INE estimava um aumento de 6,3% nos materiais e de 7,3% na mão de obra. Num mercado em que os próprios custos de construção continuam a subir, improvisar torna-se ainda mais caro.
Quanto podem derrapar os custos?
Um estudo publicado pela UCI em parceria com a Spirituc analisou a experiência de 611 pessoas que tinham construído casa nos dois anos anteriores. Não representa todas as obras realizadas em Portugal, mas oferece um retrato interessante da experiência recente de particulares.
Entre os 301 participantes que já tinham concluído a construção, 86,4% afirmaram ter cumprido o orçamento previsto. Nos casos em que isso não aconteceu, a derrapagem média foi de 22,8%. Entre as razões apontadas surgem o aumento dos preços devido à inflação, referido por 56,1% dos participantes com desvios, e as alterações ao projeto inicial, mencionadas por 46,3%.
Este último número é particularmente relevante. Porque uma alteração não implica apenas comprar outro material. Pode significar demolir trabalho já executado, alterar instalações, fazer uma nova encomenda, voltar a mobilizar determinada equipa ou atrasar trabalhos que dependiam daquela decisão.
E os prazos?
No mesmo estudo, o período médio inicialmente previsto para a construção foi de 414 dias — cerca de 14 meses — e 85% dos participantes afirmaram ter cumprido esse prazo. Entre os projetos que terminaram depois do previsto, a derrapagem média foi de 164 dias.
Entre as razões para os atrasos, as entregas de materiais foram apontadas em 46,7% dos casos e a falta de mão de obra em 26,7%. Há, portanto, atrasos que dependem do mercado. Mas há também atrasos criados dentro do próprio projeto.
Imagine que o pavimento deveria começar a ser aplicado numa determinada semana, mas o modelo ainda não foi escolhido. A equipa espera. A encomenda é feita mais tarde. O fornecedor dá quatro semanas de prazo. Os rodapés dependem do pavimento. As portas dependem das cotas finais. Outros acabamentos ficam igualmente condicionados. Uma decisão adiada pode criar uma sequência de atrasos.
Decidir antes não significa que nada possa mudar
Um projeto bem preparado não elimina os imprevistos. Essa promessa não seria realista. O objetivo é outro: não transformar em imprevisto aquilo que podia ter sido decidido antecipadamente.
Antes de iniciar a execução, devem estar suficientemente esclarecidos elementos como distribuição, soluções técnicas, materiais principais, equipamentos, acabamentos, trabalhos incluídos e responsabilidades. Quanto menos zonas cinzentas existirem, mais fiável será o orçamento e mais sólido será o planeamento.
Uma boa obra não é uma obra onde nada muda
É uma obra onde se percebe rapidamente o que mudou, porque mudou, qual o impacto, quais as alternativas e quem tem de tomar a decisão.
Planeamento, orçamento e comunicação não são três temas separados. Fazem parte do mesmo processo.